Rondônia, 16 de Novembro de 2018
ESPORTES

Fórmula 1 dos sonhos, a partir de 2021, pode não sair mais do papel

Fonte: G1
  • Fórmula 1 dos sonhos, a partir de 2021, pode não sair mais do papel
Por Livio Oricchio, Zurique, Suíça


No GP de Barein do ano passado, disputado dia 16 de abril, o GloboEsporte.com teve breve conversa com o novo líder do Formula One Group, Chase Carey. Ele havia assumido a função exercida com grande sucesso por Bernie Ecclestone durante 40 anos apenas três meses antes, dia 23 de janeiro, depois de o grupo americano Liberty Media pagar aos então donos dos direitos comerciais da F1, principalmente o grupo de investimento britânico CVC, os US$ 4,4 bilhões (R$ 16 bilhões) que faltavam do total de US$ 8 bilhões (R$ 29 bilhões) acordados.

O entusiasmo de Carey era contagiante. Gostava, ainda, de expor a base de seus planos para a F1 depois de o Acordo da Concórdia terminar, no fim de 2020. Esse acordo estabelece quase tudo nas relações entre as equipes, a Formula One Management (FOM), empresa do Formula One Group, e a Federação Internacional de Automobilismo (FIA). Por exemplo: o critério de distribuição do dinheiro arrecadado pela F1, US$ 1,2 bilhão (R$ 4,2 bilhões) por ano, o tamanho da fatia de cada um, FOM, equipes e FIA, e o modelo de definição dos regulamentos técnicos e esportivos.

Até o fim de 2020, não é possível rever o já estabelecido no Acordo da Concórdia.

- Nos planejamos uma nova F1 a partir de 2021, mais justa, competitiva, simples para quem a disputa e para quem a assiste, capaz de resgatar os fãs perdidos e ganhar milhões de novos, em especial dentre os mais jovens, disse Carey.

O repórter do GloboEsporte.com, como a imprensa de modo geral, considerava louvável aquele idealismo, necessário para a F1, mas lhe perguntou como imaginava ser possível convencer os representantes das equipes votarem a favor do que ele e os profissionais contratados para elaborar a nova F1, liderado por Ross Brawn, área técnica e esportiva, e Sean Bratches, comercial, consideram o melhor para a competição.

- Provando que os nossos planos farão todos ganharem mais. Investir menos para disputar o campeonato e participar de corridas mais disputadas vai ajudar a atrair mais público e, consequentemente, novos patrocinadores, investidores. O potencial de arrecadação da F1 é bem maior do que vemos hoje. Um produto como o que descrevi será fundamental para o crescimento da receita da F1. Todos capitalizam com isso - respondeu Carey.

Deixa como está
No fim de semana do GP da Grã-Bretanha, há três dias, Carey, Brawn e Bratches tiveram mais uma mostra do imenso desafio que será implantar a F1 dos sonhos, como ele a descreveu para o GloboEsporte.com em Barein. Os quatro construtores das unidades motrizes, Mercedes, Ferrari, Renault e Honda, não querem mudanças substanciais no regulamento dessas unidades.

Também em conversa com o GloboEsporte.com, no GP do Azerbaijão, Brawn deu sua visão das unidades motrizes atuais, que custam para os times clientes a bagatela de US$ 18 milhões (R$ 66 milhões) pelo uso de três por piloto para as 21 etapas do mundial, ou seja, cada uma custa impensáveis US$ 3 milhões (R$ 11 milhões).

- Esses motores são uma obra-prima de engenharia, mas não são apropriados para as corridas. Seu custo é irrealista, não produzem ruído, são complexos demais, levando os pilotos a serem punidos por causa da necessidade de substituir os componentes e há diferenças enormes de performance entre elas. Não é tudo, o seu regulamento não estimula nenhum outro construtor a entrar na F1.

Esse cenário levou Brawn e os engenheiros que contratou para trabalhar com ele e os técnicos da FIA elaborarem um plano de diretrizes para as unidades motrizes a partir de 2021. Ele foi anunciado em outubro do ano passado. Os dois lados, FOM e FIA, se dedicam, também, aos estudos de um novo regulamento para os chassis.

Para a F1 dos sonhos, as unidades motrizes manteriam a atual arquitetura de 1,6 litro, V-6, turbo. Mas o limitador de giros subiria dos atuais 15mil rpm para 18 mil rpm, a fim de gerar mais potência e, essencialmente, ruído. As atuais são, contra todas as indicações, silenciosas. O barulho intenso faz parte do espetáculo da F1, ajuda a compor o clima de competição no mais elevado nível.

Mais: o sistema de recuperação de energia térmica, MGU-H, seria excluído, e mantido apenas o cinético, MGU-K, e com capacidade de disponibilizar mais dos 160 cavalos de hoje. As baterias, fonte de despesas astronômicas, seriam padronizadas.

O novo regulamento estabeleceria ainda limites para soluções extremas e de custos elevadíssimos e haveria restrições a tantas formulações novas de gasolina, como hoje, outra razão importante de despesas, pois para cada tipo são necessários milhares de horas de testes no banco de provas.

Novas montadoras
Tudo isso deveria equiparar mais a performance dos quatro fabricantes de unidades motrizes hoje na F1 e levar outras montadoras a enxergar a competição com outros olhos. Seria um laboratório extraordinário para o desenvolvimento da tecnologia híbrida quem já está entrando nos veículos de série.

Seriam boas as chances de outras montadoras, atraídas pela simplificação do regulamento e redução dos custos, concluírem que a F1 representa a plataforma ideal para esses experimentos tecnológicos, tão necessários em um mercado cada vez mais competitivo e em conformidade com a imposição de preservar o meio ambiente.

Até agora, nada

Bem, as coisas não funcionaram até agora como Carey, Brawn, Bratches e os homens da FIA, liderados pelo presidente Jean Todt, imaginavam. Todos se iludiram com a presença de representantes da Porsche, Aston Martin e Jaguar nas reuniões para discutir o novo regulamento das unidades motrizes para 2021.

Mas nenhuma montadora decidiu, ainda, se vai mesmo criar um programa para a F1. Como passar a investir na F1 é algo que demanda tempo, os eventuais interessados já deveriam ter anunciado sua decisão. Não ocorrida. A interpretação de FOM, FIA e dos quatro construtores é de que não há ninguém interessado.

Algo bastante sério. Primeiro porque a criação do grupo de trabalho de Brawn, destinado a elaborar a nova F1, a dos sonhos, bem como a contratação de um grupo de profissionais para melhor explorar comercialmente a F1, comandado por Bratches, já causou um ponto de atrito, dentre outros, com os diretores das equipes. Tudo o que foi feito até agora, pagamento dos profissionais contratados, estudos de viabilidade, tem um custo. E quem paga? Não são o Liberty Media e a FIA, mas as equipes.

Já estão recebendo menos
Nesta temporada, já estão recebendo 5% a menos do repassado em 2017. É muito dinheiro. Como o total a ser distribuído às escuderias é algo como US$ 600 milhões (R$ 2,2 bilhões), segundo a classificação no mundial de construtores e sua importância histórica para a F1, por exemplo, 5% correspondem a US$ 30 milhões (RS$ 110 milhões). Sérgio Marchionne, presidente da Ferrari, e Toto Wolff, diretor da Mercedes, torceram o nariz ao ouvir de Carey que os times ficariam com um pouco a menos este ano.

Pior: ao menos em relação às unidades motrizes, todo esse esforço, investimento, parece não ter dado resultado algum. Sem novos construtores, as mudanças previstas votam à estaca zero. Os avanços que FOM e FIA imaginavam ter alcançado não conferem com a realidade. Você vai entender a seguir.

Originalmente, quem já está na F1 era e é contra essa revisão conceitual do regulamento das unidades motrizes. O GloboEsporte.com entrevistou o diretor da Renault, Cyril Abiteboul, no GP de Mônaco.

- Se o objetivo é reduzir os custos, na verdade eles vão crescer, pois seremos obrigados a investir muito no desenvolvimento das unidades motrizes atuais até o fim de 2020, se desejarmos ser competitivos, e, ao mesmo tempo, manter um programa caríssimo de pesquisa e desenvolvimento da nova unidade motriz a partir de 2021. Não faz sentido. A F1 precisa de estabilidade. Historicamente é isso que a torna menos cara e aproxima o desempenho entre as equipes.

Como Porsche, Aston Martin, Jaguar ou mesmo um construtor independente, tão desejado pela FIA, não se manifestaram até agora, os representantes de Ferrari, Mercedes, Renault e Honda se reuniram com os homens da FOM e da FIA, semana passada, para expor sua posição: não vão partir para um projeto novo de unidade motriz para 2021.
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