A renovação da política brasileira deverá enfrentar um cenário particularmente difícil nas eleições de 2026. Segundo dados citados pelo Brazil Journal, 438 dos 513 deputados federais em exercício pretendem disputar a reeleição — o equivalente a mais de 85% da Câmara e o maior índice desde a redemocratização.
Para Eduardo Mufarej, fundador do RenovaBR, o resultado revela um sistema político cada vez mais favorável a quem já ocupa cargos públicos. Na avaliação do empresário, mecanismos como o fundo eleitoral, o fundo partidário e as emendas parlamentares ampliaram a vantagem dos políticos que já possuem mandato e estrutura partidária.
“O sistema interditou a renovação política”, resume Mufarej ao analisar as dificuldades enfrentadas por pessoas que tentam entrar na vida pública sem pertencer a famílias tradicionais ou grupos políticos consolidados.
Dinheiro e estrutura pesam na disputa
Criado em 2018, o RenovaBR surgiu com a proposta de formar novas lideranças e ampliar o acesso à política para candidatos sem vínculos com as tradicionais estruturas de poder.
Desde então, a organização já formou mais de 3,6 mil alunos e contabiliza centenas de eleitos em diferentes níveis de governo, incluindo deputados, senadores, prefeitos, vice-prefeitos e vereadores.
Apesar desses resultados, Mufarej avalia que o ambiente político brasileiro se tornou mais fechado nos últimos anos.
Na visão do empresário, a distribuição de recursos públicos para campanhas reduziu a necessidade de determinados parlamentares construírem novas redes de apoio. Quem já possui mandato parte, segundo ele, de uma posição privilegiada em relação a quem está tentando ingressar na política.
Além disso, o alto custo das campanhas e o modelo proporcional de lista aberta tornam a disputa ainda mais complexa para novos candidatos.
Crise de representação
Outro ponto levantado por Mufarej é a distância entre os eleitores e seus representantes.
Ele defende que o atual modelo eleitoral contribui para uma crise de representação, já que o eleitor pode votar em um candidato que não consegue se eleger e, consequentemente, ficar sem uma identificação direta com o parlamentar eleito.
Para o fundador do RenovaBR, uma possível alternativa seria discutir mudanças no modelo eleitoral, incluindo mecanismos que aproximem representantes e regiões específicas.
A discussão, entretanto, perdeu espaço na agenda pública, segundo ele. Mufarej afirma que o Brasil praticamente deixou de discutir uma reforma eleitoral capaz de alterar as regras que determinam o acesso e a permanência no poder.
Sociedade civil terá papel decisivo
Apesar do diagnóstico pessimista, Mufarej afirma que a mudança ainda é possível. Para ele, a sociedade civil precisa voltar a participar de forma mais ativa do debate sobre as instituições e as regras eleitorais.
O empresário considera que a transformação do sistema será um processo de longo prazo e classifica a capacidade de resistência da sociedade como uma espécie de “resiliência democrática”.
A estratégia defendida pelo RenovaBR passa por identificar novas lideranças, qualificá-las e transformar boas práticas de gestão pública em políticas permanentes.
Tecnologia pode ajudar o eleitor
Se as estruturas tradicionais continuam dificultando a entrada de novos nomes, a tecnologia pode representar uma nova oportunidade.
Mufarej avalia que a digitalização e o avanço da inteligência artificial ampliaram o acesso dos eleitores a informações sobre candidatos, trajetórias e propostas.
Nesse cenário, a responsabilidade também estaria nas mãos do eleitor. Em vez de depender exclusivamente das estruturas partidárias ou da exposição proporcionada pelo financiamento eleitoral, o cidadão poderia utilizar as novas ferramentas para pesquisar candidatos e comparar suas trajetórias.
A avaliação é que ainda existem pessoas qualificadas dispostas a participar da política, mas elas precisam ser encontradas e reconhecidas pelo eleitorado.
Um desafio para as eleições de 2026
O cenário descrito pelo fundador do RenovaBR coloca uma questão central para as próximas eleições: como promover renovação em um sistema no qual grande parte dos recursos e da estrutura eleitoral está concentrada nas mãos de quem já possui mandato?
Com mais de oito décadas de democracia desde a redemocratização, o Brasil continua convivendo com a dificuldade de ampliar a representação política e permitir que novas lideranças tenham condições reais de competir.
Para Mufarej, a mudança dependerá menos de uma transformação espontânea dentro do próprio sistema e mais da pressão da sociedade para alterar as regras do jogo.
As eleições de 2026, portanto, não deverão representar apenas uma disputa entre candidatos. Também poderão funcionar como um teste sobre a capacidade do eleitorado de romper com estruturas políticas consolidadas e abrir espaço para uma nova geração de representantes.
Fonte: Rondonia 24 Horas
Com Informações de BRAZIL JOURNAL

